domingo

Fantasmas

 Penso que pensarei um pouco por toda a gente, quando por razão aparentemente inexistente me assalta a mente um episódio mais inglório de entre aqueles que já vivi. Tenho até alguns acontecimentos de estimação que me revisitam sem quererem desaparecer. Teimosos despropósitos, disparates, desequilíbrios, e tão simples azares. Ridículos vergonhas e embaraços, casos desprovidos de todo a sensação de orgulho que pudessem despertar. Quanto mais esforço recebem para partir, com mais força ficam. São coisas pequenas, sem importância. Porque permanecem? Terão um significado profundo por trás da sua insignificância? Valerá a pena insistir na lembrança, valerá ainda mais dissecá-la em busca de um sentido maior, disfarçadamente oculto, potencialmente crucial? Que faria então os fantasmas maiores, e os fantasmas reis do nosso passado... Erros ditados incorrigíveis pelo tempo que não pára e pelas cartas que não voltam ao baralho antes de se darem as mãos e o fim do jogo. Arrependimentos, remorsos guardados, mágoas choradas até à exaustão do adormecer para acordar frente a um espelho que mostra apenas uns olhos mais inchados que os do dia anterior. Contas feitas, provavelmente o melhor é mesmo continuar a tentar dar-lhes menos e menos atenção. Pessoas assombradas não vivem felizes. Talvez o empenho na tentativa da ignorância vá atenuando o efeito do assombro. Quando damos por nós, já temos um fantasma diferente. E o anterior ficou há muito para trás. Muito mais leve. Cada vez menos assustador, muito menos importante. E a maior desgraça dilui-se em partículas tão ténues quão flexível se torna a nossa atitude perante o que representam. E assim se ultrapassavam dissabores e se assustam fantasmas. Parece tão simples, no fim, que devia ser proibido dizê-lo em voz alta.

2 comentários:

Zé Pedro disse...

ESPANTOSO!! DELICIOSO!!

toomuchlovewillkillus disse...

Impressionante! Não há nada mais certo do que "pessoas assombradas não vivem felizes." E muitas vezes o problema é que as pessoas preferem ficar assombradas do que sozinhas... Uma "companhia", ainda que má, é sempre sinal de presença. Nice post baby :)