O doce de ovos evoca em mim a memória da croissanterie e o cheiro da massa a cozer no forno. As conversas animadas e as gargalhadas entre amigos à volta das mesinhas de tampo de pedra nas cadeiras de metal vermelhas. Mesmo que o quotidiano esteja repleto de pequenos gestos doces, estamos sempre a exigir mais e mais do que e de quem nos rodeia. A velha história do quanto mais tens, mais queres ter. Por isso, e como a cozinha é sempre uma grande ajuda terapêutica... Bata quatro gemas com duzentos e vinte e cinco gramas de açúcar; ferva uma chávena de chá de leite num tacho; junte as gemas com o açúcar ao leite e mexa sem parar; quando começar a espessar estará pronto. Este pode ser o ponto de partida para um bolo que precisa de recheio, ou para uns crepes que precisam de ânimo. Para uma viagem de fechar os olhos, inspirar e recordar momentos distantes cheios de açúcar.
sábado
sexta-feira
quinta-feira
Vai andando
Vai andando, vai andando... Quase, quase a chegar! A sensação de plenitude da tarefa concluída tarda em vir. Há uma arte que é uma mescla de preguiça, falta de vontade e desleixo, cuja primeira regra (e última, talvez) se resume ao deixar andar até que não possas mesmo ignorar o que tens que fazer. Irresponsabilidade? Não a queremos encarar assim... Não, nós temos sempre tudo controlado, há tempo! Há sempre tempo. Até ele começar a escassear. Incompetência? Longe de nós! Não se vê que vai tudo estar pronto a horas?! Pensamos que provavelmente a aversão a dar a coisa por terminada tem mais a ver com o facto desta não se incluir na nossa área de preferências. Talvez seja até muito desprovida de interesse, no geral. Acabamos por concluir que passamos mais tempo a procurar desculpas e argumentos para nos lamentarmos, do que propriamente a despachar o penoso encargo, para que o vejamos atirado para trás das costas. E acabamos a arrastar o que podíamos bem já ter dado por terminado há muito, e a ver as horas de sono diminuírem com a aproximação da deadline a cumprir. E até ao limite, tem de haver sempre alguém a perguntar "Então, como vai isso?". Vai andando...
sábado
A caixa da costura
Há objectos que me fascinam. E um deles é a caixa da costura. Dedais, carrinhos de linhas de tantas cores e mais algumas, agulhas, alfinetes. De todo o conteúdo, o que mais me atrai é o cantinho dos botões. Uma miscelânea de cores, feitios, tamanhos. À primeira vista, parecem todos diferentes. A custo, entre tantas peças, encontramos pares, às vezes trios, quem sabe conjuntos maiores do mesmo botão. Uns brilhantes, outros baços e velhos. Um ou outro partido, outro apenas rachado. Fazem lembrar indivíduos habitantes de um mesmo local comum. Servem todos o mesmo propósito. Pretendem encontrar uma casa, pertencer a algo maior, não ficar sozinhos. Querem ver mais lugares além da caixa da costura que conhecem. E querem encontrar outros botões, diferentes daqueles com que já tiveram oportunidade de privar. Mais tarde ou mais cedo, hão-de voltar todos àquela caixinha dentro de uma caixa maior. Talvez tenham caído, poderão precisar apenas de mais força, com linha nova apertada. Quando já não servirem, ou simplesmente quando tiverem passado de moda. Mais tarde, pode ser que alguém volte a lembrar-se deles. A moda tem sempre aquela tendência de revisitar tempos passados. E torna o velho a ter alguma graça. De toda a tralha que há dentro da caixa de costura, é dos botões que eu gosto mais. Remexê-los entre os dedos. Hei-de aprender a costurar, que a coser botões já me ajeito.
quarta-feira
Trigo limpo
O amarelo do sol a tocar o baixo horizonte confundia-se com o dourado do cabelo dela escondido pelo largo chapéu de palha que a coroava. Qual rainha da seara, mais que o brilho da cor do trigo a envolver o amarelo do sol e o dourado do teu cabelo, brilhava o teu sorriso, quando o abrias para ninguém, mas para toda a gente. Que nesses momentos toda a gente era mesmo só eu, nas minhas calças de ganga gastas e camisa branca velha. Pensava nessa altura que tinha muita sorte. Tu tinhas um vestido leve rosa pálido, pintalgado de florinhas vermelhas escuras. E no teu vestido leve, levemente pulavas entre as espigas. E colhias malmequeres que eu nem conseguia ver de onde saíam. O vento teimava uma e outra vez e outra ainda de seguida, um ondular suave sem fim na cor do trigo a perder de vista. Misturava-se com as ondas dos fios de ouro que caíam do teu chapéu, flutuantes.
Eu ficava ali, de pé. Ou então sentava-me. Contemplava essa tua estranha dança e invejava a forma como te fundias na paisagem. Não consigo dizer a dimensão da vontade que tinha de correr, pegar-te nos meus braços e levantar-te no ar. Não há maneira de dar a entender o tamanho do meu desejo de agarrar na tua cara com as minhas duas mãos e beijar-te a boca com força. Apertar-te contra mim. Ainda hoje não posso ter a certeza de que fosses real, sólida, de "carne e osso". Parecia que qualquer movimento que eu fizesse na tua direcção iria fazer com que te desvanecesses ali, sem esforço. Então deixava-me ficar imóvel. Naquele suster de respiração como que se me subisse o bater do coração pelo corpo acima e o descompasso acelerado se pudesse ouvir ao longe, na pausa do tempo entre o sonho e a descida à Terra.
Chegava-me, este ténue tocar-te sem que ninguém pudesse ver que te tocava. Sem que pudesses ver que te tocava. Sem que pudesses sentir o meu toque. Era um gesto despretensioso, cândido, limpo. Como o trigo que depois de levado se guardava, já separado. Era trigo limpo, o meu toque. Não haveria quem o censurasse, não tinha nada de condenável. Mas ainda assim acredito que apesar de todos os sinais indicarem que o não sentias, tu sabias que eu te tocava. E nessa divagação do meu ser, a tua essência ansiava a minha, tanto quanto a minha pela tua. Ainda hoje tento conduzir os meus sonhos nesse sentido. É uma espécie de conforto, de aconchego no peito. A fantasia da correspondência do meu amor, por ti. Hás-de pular para sempre pelas searas do meu imaginário, leve, doce, bela. Amada.
Eu ficava ali, de pé. Ou então sentava-me. Contemplava essa tua estranha dança e invejava a forma como te fundias na paisagem. Não consigo dizer a dimensão da vontade que tinha de correr, pegar-te nos meus braços e levantar-te no ar. Não há maneira de dar a entender o tamanho do meu desejo de agarrar na tua cara com as minhas duas mãos e beijar-te a boca com força. Apertar-te contra mim. Ainda hoje não posso ter a certeza de que fosses real, sólida, de "carne e osso". Parecia que qualquer movimento que eu fizesse na tua direcção iria fazer com que te desvanecesses ali, sem esforço. Então deixava-me ficar imóvel. Naquele suster de respiração como que se me subisse o bater do coração pelo corpo acima e o descompasso acelerado se pudesse ouvir ao longe, na pausa do tempo entre o sonho e a descida à Terra.
Chegava-me, este ténue tocar-te sem que ninguém pudesse ver que te tocava. Sem que pudesses ver que te tocava. Sem que pudesses sentir o meu toque. Era um gesto despretensioso, cândido, limpo. Como o trigo que depois de levado se guardava, já separado. Era trigo limpo, o meu toque. Não haveria quem o censurasse, não tinha nada de condenável. Mas ainda assim acredito que apesar de todos os sinais indicarem que o não sentias, tu sabias que eu te tocava. E nessa divagação do meu ser, a tua essência ansiava a minha, tanto quanto a minha pela tua. Ainda hoje tento conduzir os meus sonhos nesse sentido. É uma espécie de conforto, de aconchego no peito. A fantasia da correspondência do meu amor, por ti. Hás-de pular para sempre pelas searas do meu imaginário, leve, doce, bela. Amada.
sábado
Contos de fadas
De finais felizes. A grande indefinição do que vem depois da aventura. E se a vida não for uma aventura, como nos contos de fadas? E se tiver que ser apenas o final? Deixemos de lhe chamar final... passa a ser o quê? O meio? Vida de meios felizes. Não soa nada bem.
E se dividirmos a vida em vidas pequenas? Na medida em que a nossa vida não seja só uma, sejam várias vidas que se entrelaçam com a nossa. E assim, já podemos falar de aventuras? Cada entrelaçada uma aventura. O que será um final feliz então?...
Como é que se prolonga uma aventura? Como é que se adia um final, quando o meio é tão feliz? Como é que não se deixam fugir as borboletas na barriga, a qualquer coisa entalada na garganta, o arrepio espinha acima, a sensação de queda livre, a censura da maneira como nos apresentamos, do que dizemos, de como estamos, do que fazemos?
Era fechar os olhos e parar o tempo e parar o sangue de correr pelas veias e artérias, congelado, tão frio. Coisa assim não pode ser boa. Fria, gelada. Vazia de vida. Já não seria vida, então. Já não seria aventura também. Na tentativa de prolongar a aventura, acabaríamos com ela de uma vez, ainda antes do tempo dela acabar se não tivéssemos tentado intervir no curso natural das coisas.
Sim, felizes ou não, há sempre finais. E de uma maneira ou de outra, mais ou menos dolorosa, acabam por ser para o nosso bem.
Algumas vezes, o final afinal ainda vem relativamente longe... e podemos descansar e deleitar-nos mais um pouco no quentinho do meio da aventura.
domingo
Estrada
Fizémo-nos à estrada, como sempre, atrasados. Bastante atrasados. É todas as vezes a mesma coisa, por mais cedo que a mãe nos acorde, por mais rápido que se arrumem as malas no carro. Não consigo perceber onde raio enfiamos nós o tempo! É assim, quando viajamos. Que correria...
Adoro a viagem. Gosto mesmo. Há sempre tempo para tudo, especialmente se não for eu a conduzir. Dormitar um bocadinho, em jeito de pedido de desculpas a um corpo cansado que nesse dia tem autorização para dormir bem menos que o costume. Estender a vista por montes, vales e planícies. Cumprimentar pessoas que passam na rua, e animais que vagueiam pelas pastagens. Cantarolar músicas que passam na rádio, cujas letras é incrível nunca sabermos por completo, de tão ouvidas que estão. Tentar sem sucesso fotografar o que passa ao nosso lado a alguma velocidade, a suficiente para nos fugir à lente.
Chegamos e é mágico, reencontrar quem está longe a maior parte do tempo. E questionamo-nos "por que é que não telefono mais vezes?!"
Antes de encontrar uma resposta entre mil pensamentos, ocupações e preocupações que povoam a minha mente, o tempo já passou o suficiente para estarmos de partida. "Devíamos ter tirado mais fotografias todos juntos." Mais do que em qualquer momento que possa assaltar o nosso dia-a-dia, é aí que nos apercebemos de toda a fragilidade da distância. Voltamo-nos para trás no banco e acenamos um adeus até o carro ter contornado a esquina da rua. Um adeus que é eterno, até ao nosso regresso. Um sorriso que tem cheirinho a lágrimas, do momento emocionado com a grandeza dos laços. Ainda bem que a estrada faz parte da vida. Ainda bem que o destino também.
Adoro a viagem. Gosto mesmo. Há sempre tempo para tudo, especialmente se não for eu a conduzir. Dormitar um bocadinho, em jeito de pedido de desculpas a um corpo cansado que nesse dia tem autorização para dormir bem menos que o costume. Estender a vista por montes, vales e planícies. Cumprimentar pessoas que passam na rua, e animais que vagueiam pelas pastagens. Cantarolar músicas que passam na rádio, cujas letras é incrível nunca sabermos por completo, de tão ouvidas que estão. Tentar sem sucesso fotografar o que passa ao nosso lado a alguma velocidade, a suficiente para nos fugir à lente.
Chegamos e é mágico, reencontrar quem está longe a maior parte do tempo. E questionamo-nos "por que é que não telefono mais vezes?!"
Antes de encontrar uma resposta entre mil pensamentos, ocupações e preocupações que povoam a minha mente, o tempo já passou o suficiente para estarmos de partida. "Devíamos ter tirado mais fotografias todos juntos." Mais do que em qualquer momento que possa assaltar o nosso dia-a-dia, é aí que nos apercebemos de toda a fragilidade da distância. Voltamo-nos para trás no banco e acenamos um adeus até o carro ter contornado a esquina da rua. Um adeus que é eterno, até ao nosso regresso. Um sorriso que tem cheirinho a lágrimas, do momento emocionado com a grandeza dos laços. Ainda bem que a estrada faz parte da vida. Ainda bem que o destino também.
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