sábado

Limites


Uma pessoa deve conhecer de perto e em pormenor os seus limites. Sim, devem ser desafiados... Mas, para bem da sanidade mental do próprio e dos que o rodeiam, há que ter muita cautela com estes desafios. Quando o ponto forte do teu dia começar a estar relacionado com episódios tais como o momento da saída do local de trabalho ainda de dia, e mesmo não estando um sol radiante, por acaso calha a estar uma fresca neblina que te traz o cheiro do mar de outras bandas, então terás algumas respostas acerca daquilo que valorizas. Se te parecer que és o único a reparar nos insectos e afins que encontras enquanto passas pelo jardim no caminho para casa. Se chegares à conclusão que te interessam mais os meios que os fins. E a manta no sofá e o silêncio no ar. Porque é que te sentes culpado?! Devias respirar fundo, expirar lentamente de olhos fechados e sentir o maior alívio. Não são estas as coisas que nos estão sempre a dizer que toda a gente procura?! Que o tempo é escasso, a vida é um dom, tudo corre e nada fica e que se quer é saúde e quem se ama por perto, bla bla bla "pardais ao ninho", como costuma dizer o meu pai. Andamos todos enganados. E no fim das contas, como no fim do dia, está tudo escravo da frustração. Ainda que se seja muito bom em teatradas e se finja ao espelho que não. Serão raras as vezes dos momentos de concretização plena. É pena. Parece tão fácil quando aprendemos a lição.

terça-feira

Charco

Preferia fugir e ficar até anoitecer deitado na relva. A ter de encarar o fracasso escrito em todas as caras (ou, em maior verdade, em todos os espelhos a olhar fixamente para mim). O ar era quente e saturado, o céu alaranjava conforme a luz caía em raios cujos ângulos pintavam o azul de uma cor diferente. As rãs no charco eram a banda sonora perfeita para o mais barulhento cérebro. O charco quieto o melhor cenário para o mais entorpecido corpo. As linhas rectas desenhadas pelos aviões muitos quilómetros acima do chão contrastavam com as curvas enroladas das tentativas de raciocínio e gozavam com a falta de certeza que dali emanava. Se parte queria levantar-se, erguer-se para tomar uma atitude e decididamente saber para sempre como resolver tudo o que surgisse, a parte maior que essa deixava-se inadvertidamente estar, horizontalmente descontraída, a contrair a outra tanto que não lhe deu espaço nunca para crescer. Guerra desleal. Tomada inconscientemente e de forma tão inevitável.  Se ao menos pudesse querer calar aquelas rãs... Elas talvez deixassem o pensamento ser mais claro, menos difícil. Mais concreto. E determinado. E capaz. Talvez me sentisse melhor.

Há elfos na cozinha

Há elfos na cozinha, gostam de espalhar açúcar e farinha pela mesa e pelo chão. Trabalham à luz das velas, acesas e espalhadas pelas bancadas de mármore. Fazem bolos e bolachas, às vezes tartes e pudins. Enchem aquela divisão com muitas estrelas pequeninas e brilhantes, purpurina no ar. Quando tudo é dourado e prateado e verde e vermelho, os sacos das compras vêm cheios de ovos e tangerinas, bacalhau e couves. E mal saímos à rua, de tão quente é a sala da lareira. De tanta geada que nos dá os bons-dias lá fora mal o sol se levanta. É Natal. E tudo brilha que nem o doce glacé do bolo em forma de tronco que adorna a mesa. Fazendo de conta que por estas paragens também neva, o teatro é sempre bem-vindo por esta altura. É Natal. E apesar do gelo nas bochechas de quem bate e entra à porta, nunca se sentirá mais calor em todo o Inverno do que no tempo de Natal.

Young blood

Enchemos mochilas com garrafas de cerveja e debaixo do lençol preto do céu estrelado de Agosto subimos para cima das bicicletas. Pedalámos uns atrás dos outros, aos gritos pela noite. Entrámos por terrenos alheios, fomos por dentro de ervas e arbustos. Saltámos muros e cercas de arame farpado, com as bicicletas às costas e as lanternas a apontar o caminho. Sujámos calças e calções, arranhámos as canelas. Pisámos as tábuas do velho e tosco cais de madeira, despimo-nos e mandámo-nos para dentro de água. Aquela sopa mista de lama e ferrugem e óleo dos motores dos barcos. Atirámos água uns aos outros, ecoámos gargalhadas, não havia amanhã. Subimos agarrados a cordas cheias de algas e deitámo-nos a contemplar a abóbada do melhor Verão das nossas vidas. A contar estrelas que caíam, direitinhas aos nossos bolsos, cheias de desejos. A água já não se mexia, o silêncio do açude somente perturbado por corujas e mochos que piavam uma ou outra vez. No ar, a essência de cada um tocava a do outro, saturando a atmosfera com algo que não saberemos enunciar ao certo. Fizemos coro para músicas lamechas que nunca teríamos tido coragem de cantar noutro contexto. Fugimos a sete pés e muitas rodas, pregámos sustos e morremos de medo no breu da floresta, aos tropeções nas raízes elevadas da terra. Explodimos de alegria quando chegámos à estrada iluminada pelos candeeiros de rua. Fizemos parte uns dos outros. E isso permanece.

quinta-feira

Vícios



Passei a viciar o acaso, quando quis fazer coincidir os meus cigarros à minha varanda com as horas de estudo do clarinetista vizinho à sua varanda. Eu à direita, ele à esquerda, no quarto andar do prédio mais velho do quarteirão. Tinta a cair, escadas de madeira que cheiram a mofo e há muito se despiram de verniz, elevadores que nunca funcionaram durante a minha singela existência. Depois das sete, quando já estava mais do que escura a noite, deixava o refogado a queimar durante alguns minutos, vestia um casaco para não enregelar os meus finos ossos, apagava a luz da cozinha e saía de mansinho para a varanda. Ficava de pé e braços meio cruzados, fazia argolas no ar. Fechava os olhos e via-o a ele. O muro que nos protegia da vista um do outro deixava descobrir as aladas notas de música e os dançantes fios de fumo em torno do seu som. Enrolavam-se a melodia e a nuvem, tocavam-se, beijavam-se, davam-se. Respiravam-se. Mas durava o tempo de um cigarro. E durava o tempo das moléculas de cheiro a refogado queimado viajarem até às minhas narinas e se confundirem com o cheiro do tabaco que me torna amarelos os dedos. Voltava a entrar, aquecia uma refeição congelada e comia, deprimida, com o clarinete por banda sonora do jantar mais só.

sábado

Sol quente que teu calor agora se esvai aos poucos, cada dia mais um pouco, e mais outro e outro. Até o teu brilho no meu cabelo se tornar tão frio, tão gelado, que nem pareces mais o mesmo. Avisas quem quiser saber que vais tirar férias em breve, que já trabalhaste muitas horas este ano, que dentro de dias passarás a vez ao astro despido que te substitui nos turnos. A despedida é discreta, aliás, tanto que nem por ela se dá. Elevas apenas a minha face, fechas-me os olhos, dás-me um esgar de sorriso e deixas que, quando te vire costas zangadas, os teus raios se escondam entre as madeixas mais claras. Mas mais e mais frio o teu brilho. Apesar de guardado, à minha mão, se eu quiser. Tão frio.

Rosa de jardim

A água que cai e molha o chão e as plantas em Agosto no jardim da Rosa é a mesma que à Rosa humedece a face e escurece o cabelo, apanhado com alguns ganchos que madeixas e franja deixam cair a esconder os olhos. Dos olhos outras águas nascem, diferentes em composição, semelhantes em sentimento e função. Surgem quando o ardente e caloroso fulgor do que aconteceu se retira para dar lugar a um frio, estático vazio. Servem para expulsar fantasmas, para oficializar o luto, para libertar a frustração em pequenas doses, devagar, até que se esgote. Servem entretanto para lavar angústias, remorsos, mágoas, rancores. É por isso que não basta água pura. Tem de ter sal, e soluços, e falta de ar, e respirar ofegante, gemidos e dor. Para afugentar para longe os negros espectros do que não mais pertence ao tempo que passa. Rosa e suas rosas, de sua cor, amarelas, brancas ou vermelhas, mas encharcadas pelo mau tempo que nem em mês quente deixa de estar presente. Rosa pensa: «Pelo menos não terei que as regar hoje». Pega no regador grande, metálico, a tinta verde descascada a descobrir o laranja enferrujado, e volta para dentro. Há que desvalorizar a chuva em Agosto, há sempre calor suficiente para a secar mais depressa.