terça-feira
Há elfos na cozinha
Há elfos na cozinha, gostam de espalhar açúcar e farinha pela mesa e pelo chão. Trabalham à luz das velas, acesas e espalhadas pelas bancadas de mármore. Fazem bolos e bolachas, às vezes tartes e pudins. Enchem aquela divisão com muitas estrelas pequeninas e brilhantes, purpurina no ar. Quando tudo é dourado e prateado e verde e vermelho, os sacos das compras vêm cheios de ovos e tangerinas, bacalhau e couves. E mal saímos à rua, de tão quente é a sala da lareira. De tanta geada que nos dá os bons-dias lá fora mal o sol se levanta. É Natal. E tudo brilha que nem o doce glacé do bolo em forma de tronco que adorna a mesa. Fazendo de conta que por estas paragens também neva, o teatro é sempre bem-vindo por esta altura. É Natal. E apesar do gelo nas bochechas de quem bate e entra à porta, nunca se sentirá mais calor em todo o Inverno do que no tempo de Natal.
Young blood
quinta-feira
Vícios
Passei a viciar o acaso, quando quis fazer coincidir os meus cigarros à minha varanda com as horas de estudo do clarinetista vizinho à sua varanda. Eu à direita, ele à esquerda, no quarto andar do prédio mais velho do quarteirão. Tinta a cair, escadas de madeira que cheiram a mofo e há muito se despiram de verniz, elevadores que nunca funcionaram durante a minha singela existência. Depois das sete, quando já estava mais do que escura a noite, deixava o refogado a queimar durante alguns minutos, vestia um casaco para não enregelar os meus finos ossos, apagava a luz da cozinha e saía de mansinho para a varanda. Ficava de pé e braços meio cruzados, fazia argolas no ar. Fechava os olhos e via-o a ele. O muro que nos protegia da vista um do outro deixava descobrir as aladas notas de música e os dançantes fios de fumo em torno do seu som. Enrolavam-se a melodia e a nuvem, tocavam-se, beijavam-se, davam-se. Respiravam-se. Mas durava o tempo de um cigarro. E durava o tempo das moléculas de cheiro a refogado queimado viajarem até às minhas narinas e se confundirem com o cheiro do tabaco que me torna amarelos os dedos. Voltava a entrar, aquecia uma refeição congelada e comia, deprimida, com o clarinete por banda sonora do jantar mais só.
sábado
Rosa de jardim
A água que cai e molha o chão e as plantas em Agosto no jardim da Rosa é a mesma que à Rosa humedece a face e escurece o cabelo, apanhado com alguns ganchos que madeixas e franja deixam cair a esconder os olhos. Dos olhos outras águas nascem, diferentes em composição, semelhantes em sentimento e função. Surgem quando o ardente e caloroso fulgor do que aconteceu se retira para dar lugar a um frio, estático vazio. Servem para expulsar fantasmas, para oficializar o luto, para libertar a frustração em pequenas doses, devagar, até que se esgote. Servem entretanto para lavar angústias, remorsos, mágoas, rancores. É por isso que não basta água pura. Tem de ter sal, e soluços, e falta de ar, e respirar ofegante, gemidos e dor. Para afugentar para longe os negros espectros do que não mais pertence ao tempo que passa. Rosa e suas rosas, de sua cor, amarelas, brancas ou vermelhas, mas encharcadas pelo mau tempo que nem em mês quente deixa de estar presente. Rosa pensa: «Pelo menos não terei que as regar hoje». Pega no regador grande, metálico, a tinta verde descascada a descobrir o laranja enferrujado, e volta para dentro. Há que desvalorizar a chuva em Agosto, há sempre calor suficiente para a secar mais depressa.
domingo
Há grilos na estação do Lumiar
Há grilos na estação do metropolitano no Lumiar e ninguém parece reparar. Ninguém comenta, ninguém faz um olhar desconfiado, ninguém procura o seu esconderijo. Espero que isso não queira dizer que não ouçam e que não pensem como é tão bom entrar de manhã no metro e poder pelo menos sorrir com este curioso chilreio. Antes de me transportar para a rotina, transporta-me para outros lados distantes, reconfortantes. E isso sabe-me tão bem.
sábado
Hoje, sexta-feira, esqueci-me da chave de casa
Hoje, sexta-feira, esqueci-me da chave de casa. E, de volta, enquanto esperava que ela chegasse à minha porta, sentei-me na soleira. As árvores de troncos e ramos entortados em esses serpenteantes desesperados em busca da luz estão carregados de folhas verdes, frescas, translúcidas. Uma abóbada de sombra clara que torna sereno o calor da tarde que em breve termina. Tremem ao sabor da brisa e lembram reflexos brilhantes na superfície de um lago. Deixam cair leves amarelas flores que fazem tapetes no chão e enfeitam os cabelos das meninas que saem da escola. Passam muitos miúdos de mochila às costas, é fim-de-semana, finalmente. Da vedação que limita o pátio saltam luxuriantes folhas de bananeira, roxas buganvílias, heras e farfalhudos arbustos. Chilreiam os pardais de telhado, atravessam a rua em estonteantes voos. Cantam os melros em seus poisos. As andorinhas já escasseiam, é início de Junho. Duas estrangeiras saem do meu prédio. Não as conheço e vão a falar outra língua que nem consigo identificar. Encontro duas moedinhas de um cêntimo no passeio. Finalmente a minha chave chega. E entramos.
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