sábado
Da varanda, o Equador
Ventos
Não tenho saudades do vento do norte. Nunca tenho. Gosto que ele não venha. Que venham outros em sua vez. Porque quanto mais ele sopre, mais eu hei-de apertar a minha capa. Mais e mais até de tão apertada estar eu deixar de sentir que sinto seja o que for incluindo o frio que me enregela os ossos e a alma. Venha o sol, e o seu poder de persuasão. E a minha capa cairá no chão sem esforço. Sem força para me agarrar. Cairei com ela, inanimada, mas agora feliz. Deleitada. Ventos de gelo são coisa a não lembrar, quando se quer os raios estrelados a penetrar os poros do corpo e a preencher o ser de bendita, gloriosa energia. Venham as ventosidades quentes revolver-me o cabelo, encher-me os pulmões de vida, abrir-me as asas e as das andorinhas. Adeus, vento norte! Mantém-te longe!
Limites
Uma pessoa deve conhecer de perto e em pormenor os seus limites. Sim, devem ser desafiados... Mas, para bem da sanidade mental do próprio e dos que o rodeiam, há que ter muita cautela com estes desafios. Quando o ponto forte do teu dia começar a estar relacionado com episódios tais como o momento da saída do local de trabalho ainda de dia, e mesmo não estando um sol radiante, por acaso calha a estar uma fresca neblina que te traz o cheiro do mar de outras bandas, então terás algumas respostas acerca daquilo que valorizas. Se te parecer que és o único a reparar nos insectos e afins que encontras enquanto passas pelo jardim no caminho para casa. Se chegares à conclusão que te interessam mais os meios que os fins. E a manta no sofá e o silêncio no ar. Porque é que te sentes culpado?! Devias respirar fundo, expirar lentamente de olhos fechados e sentir o maior alívio. Não são estas as coisas que nos estão sempre a dizer que toda a gente procura?! Que o tempo é escasso, a vida é um dom, tudo corre e nada fica e que se quer é saúde e quem se ama por perto, bla bla bla "pardais ao ninho", como costuma dizer o meu pai. Andamos todos enganados. E no fim das contas, como no fim do dia, está tudo escravo da frustração. Ainda que se seja muito bom em teatradas e se finja ao espelho que não. Serão raras as vezes dos momentos de concretização plena. É pena. Parece tão fácil quando aprendemos a lição.
terça-feira
Charco
Há elfos na cozinha
Há elfos na cozinha, gostam de espalhar açúcar e farinha pela mesa e pelo chão. Trabalham à luz das velas, acesas e espalhadas pelas bancadas de mármore. Fazem bolos e bolachas, às vezes tartes e pudins. Enchem aquela divisão com muitas estrelas pequeninas e brilhantes, purpurina no ar. Quando tudo é dourado e prateado e verde e vermelho, os sacos das compras vêm cheios de ovos e tangerinas, bacalhau e couves. E mal saímos à rua, de tão quente é a sala da lareira. De tanta geada que nos dá os bons-dias lá fora mal o sol se levanta. É Natal. E tudo brilha que nem o doce glacé do bolo em forma de tronco que adorna a mesa. Fazendo de conta que por estas paragens também neva, o teatro é sempre bem-vindo por esta altura. É Natal. E apesar do gelo nas bochechas de quem bate e entra à porta, nunca se sentirá mais calor em todo o Inverno do que no tempo de Natal.
Young blood
quinta-feira
Vícios
Passei a viciar o acaso, quando quis fazer coincidir os meus cigarros à minha varanda com as horas de estudo do clarinetista vizinho à sua varanda. Eu à direita, ele à esquerda, no quarto andar do prédio mais velho do quarteirão. Tinta a cair, escadas de madeira que cheiram a mofo e há muito se despiram de verniz, elevadores que nunca funcionaram durante a minha singela existência. Depois das sete, quando já estava mais do que escura a noite, deixava o refogado a queimar durante alguns minutos, vestia um casaco para não enregelar os meus finos ossos, apagava a luz da cozinha e saía de mansinho para a varanda. Ficava de pé e braços meio cruzados, fazia argolas no ar. Fechava os olhos e via-o a ele. O muro que nos protegia da vista um do outro deixava descobrir as aladas notas de música e os dançantes fios de fumo em torno do seu som. Enrolavam-se a melodia e a nuvem, tocavam-se, beijavam-se, davam-se. Respiravam-se. Mas durava o tempo de um cigarro. E durava o tempo das moléculas de cheiro a refogado queimado viajarem até às minhas narinas e se confundirem com o cheiro do tabaco que me torna amarelos os dedos. Voltava a entrar, aquecia uma refeição congelada e comia, deprimida, com o clarinete por banda sonora do jantar mais só.
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