sexta-feira
Líquidas formas
Formas líquidas elongam-se, enrolam-se vagarosamente, flutuantes no ar. Indefinidas, arestas contínuas, rolantes. Entram e saem de recipientes de fronteiras igualmente flutuantes. Parecem bolhas cheias de fumo, moldadas pela atmosfera que as envolve, em diferenças de pressão entre fases que as torna igualmente corpóreas, reais. Preenchem toda a sala, lutam preguiçosamente pelo espaço. Calmamente formam extensões, protuberantes em várias direcções. Como num candeeiro de lava, são luminosas e coloridas. Têm um halo comum de brilho desfocado. Põem-me tonta, se as contemplo de costas no chão, expressão esgazeada. Hipnotizam-te e abrem-te a boca, em estático espanto. Anestesiam-te enfim, imóvel, inconsciente. Livre.
sábado
Da varanda, o Equador
Ventos
Não tenho saudades do vento do norte. Nunca tenho. Gosto que ele não venha. Que venham outros em sua vez. Porque quanto mais ele sopre, mais eu hei-de apertar a minha capa. Mais e mais até de tão apertada estar eu deixar de sentir que sinto seja o que for incluindo o frio que me enregela os ossos e a alma. Venha o sol, e o seu poder de persuasão. E a minha capa cairá no chão sem esforço. Sem força para me agarrar. Cairei com ela, inanimada, mas agora feliz. Deleitada. Ventos de gelo são coisa a não lembrar, quando se quer os raios estrelados a penetrar os poros do corpo e a preencher o ser de bendita, gloriosa energia. Venham as ventosidades quentes revolver-me o cabelo, encher-me os pulmões de vida, abrir-me as asas e as das andorinhas. Adeus, vento norte! Mantém-te longe!
Limites
Uma pessoa deve conhecer de perto e em pormenor os seus limites. Sim, devem ser desafiados... Mas, para bem da sanidade mental do próprio e dos que o rodeiam, há que ter muita cautela com estes desafios. Quando o ponto forte do teu dia começar a estar relacionado com episódios tais como o momento da saída do local de trabalho ainda de dia, e mesmo não estando um sol radiante, por acaso calha a estar uma fresca neblina que te traz o cheiro do mar de outras bandas, então terás algumas respostas acerca daquilo que valorizas. Se te parecer que és o único a reparar nos insectos e afins que encontras enquanto passas pelo jardim no caminho para casa. Se chegares à conclusão que te interessam mais os meios que os fins. E a manta no sofá e o silêncio no ar. Porque é que te sentes culpado?! Devias respirar fundo, expirar lentamente de olhos fechados e sentir o maior alívio. Não são estas as coisas que nos estão sempre a dizer que toda a gente procura?! Que o tempo é escasso, a vida é um dom, tudo corre e nada fica e que se quer é saúde e quem se ama por perto, bla bla bla "pardais ao ninho", como costuma dizer o meu pai. Andamos todos enganados. E no fim das contas, como no fim do dia, está tudo escravo da frustração. Ainda que se seja muito bom em teatradas e se finja ao espelho que não. Serão raras as vezes dos momentos de concretização plena. É pena. Parece tão fácil quando aprendemos a lição.
terça-feira
Charco
Há elfos na cozinha
Há elfos na cozinha, gostam de espalhar açúcar e farinha pela mesa e pelo chão. Trabalham à luz das velas, acesas e espalhadas pelas bancadas de mármore. Fazem bolos e bolachas, às vezes tartes e pudins. Enchem aquela divisão com muitas estrelas pequeninas e brilhantes, purpurina no ar. Quando tudo é dourado e prateado e verde e vermelho, os sacos das compras vêm cheios de ovos e tangerinas, bacalhau e couves. E mal saímos à rua, de tão quente é a sala da lareira. De tanta geada que nos dá os bons-dias lá fora mal o sol se levanta. É Natal. E tudo brilha que nem o doce glacé do bolo em forma de tronco que adorna a mesa. Fazendo de conta que por estas paragens também neva, o teatro é sempre bem-vindo por esta altura. É Natal. E apesar do gelo nas bochechas de quem bate e entra à porta, nunca se sentirá mais calor em todo o Inverno do que no tempo de Natal.
Young blood
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