sábado
Assador de castanhas
domingo
Mudança de energia
Pensei em cabelos fora dos penteados, vestidos esvoaçantes, velhos a segurar as boinas para que não fujam, castanhas folhas a fugir de montes ao longo do passeio. Panos a saltar das molas nos estendais, sacos de plásticos a elevar-se no ar. Pensei que todos me lembravam esforço. O esforço de contenção, contrariado pela força do ar que corre no vento. Ninguém se quer perder no meio da tempestade. Ninguém se quer ver desaparecer. Toda a gente se segura em si, com determinação. Conscientes do seu objectivo.
Lavei a cara com a frescura que anuncia o fim do tempo quente. Fechei a janela para que o conforto do quarto me voltasse a abraçar. Voltei a deitar-me e desta vez puxei para mim o edredão entretanto abandonado aos pés da cama. Dormi. É vento lá fora. E chuva e frio e corpos rijos com medo de perder a energia. É tempo de ir buscar energia a outro lado.
quarta-feira
Pequenice
Quando és pequeno, há um número infinito de países neste mundo, que é impossível saber o nome deles todos. Há tantas pessoas à face do globo que tens a certeza de pelo menos uma estar a fazer exactamente o mesmo que tu em cada momento. Os rabiscos nas folhas dos teus cadernos são para ti os mais eloquentes ensaios. E todas as superfícies são boas para gravares o teu nome, ainda que uma ou mais letras fiquem escritas do avesso. Sabes que a casa de uns dos teus avós é suficientemente longe para as visitas terem de durar pelo menos um dia inteiro e para o Natal ser passado lá todos os anos. Não tens noção de quanto mede um mês, nem sequer uma tarde. Voltas para casa quando escurece, ou quando alguém berra o teu segundo nome a seguir ao primeiro. A tua casa é a rua inteira e ainda a paralela para a qual tens acesso pelo terreno em obras intermináveis. Quando és pequeno, sabes que a certa altura a tua mãe vai aparecer no quintal com um tabuleiro cheio de sandes de manteiga e fiambre, um jarro de limonada e gelo acompanhado de meia dúzia de copos desirmanados e uma taça de cubos de melancia fresca. A única coisa que conheces acerca de gasolina é o cheiro do carro do teu pai. Medes as estações do ano pela orientação e tamanho da sombra do telhado no chão. E até achas que o Verão dura mais do que todo o tempo escolar. Queres adoptar todos os gatos que encontras na rua. Andas descalço todo o dia. Gritas, ris, sobes às árvores, esfolas os joelhos, choras, fazes birras. Lambuzas-te com as torradas grossas com azeite e açúcar e as bolachas maria barradas com manteiga que a avó te prepara. Reconheces o som das canadianas do teu avô e segue-lo para a horta à hora da rega. Quando és pequeno, estas e outras experiências parecem não ter lugar no tempo. Parecem eternas. E não o são?
segunda-feira
Estranhas cigarras
sexta-feira
Líquidas formas
Formas líquidas elongam-se, enrolam-se vagarosamente, flutuantes no ar. Indefinidas, arestas contínuas, rolantes. Entram e saem de recipientes de fronteiras igualmente flutuantes. Parecem bolhas cheias de fumo, moldadas pela atmosfera que as envolve, em diferenças de pressão entre fases que as torna igualmente corpóreas, reais. Preenchem toda a sala, lutam preguiçosamente pelo espaço. Calmamente formam extensões, protuberantes em várias direcções. Como num candeeiro de lava, são luminosas e coloridas. Têm um halo comum de brilho desfocado. Põem-me tonta, se as contemplo de costas no chão, expressão esgazeada. Hipnotizam-te e abrem-te a boca, em estático espanto. Anestesiam-te enfim, imóvel, inconsciente. Livre.
sábado
Da varanda, o Equador
Ventos
Não tenho saudades do vento do norte. Nunca tenho. Gosto que ele não venha. Que venham outros em sua vez. Porque quanto mais ele sopre, mais eu hei-de apertar a minha capa. Mais e mais até de tão apertada estar eu deixar de sentir que sinto seja o que for incluindo o frio que me enregela os ossos e a alma. Venha o sol, e o seu poder de persuasão. E a minha capa cairá no chão sem esforço. Sem força para me agarrar. Cairei com ela, inanimada, mas agora feliz. Deleitada. Ventos de gelo são coisa a não lembrar, quando se quer os raios estrelados a penetrar os poros do corpo e a preencher o ser de bendita, gloriosa energia. Venham as ventosidades quentes revolver-me o cabelo, encher-me os pulmões de vida, abrir-me as asas e as das andorinhas. Adeus, vento norte! Mantém-te longe!
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